Da reclamação à confiança, a necessária compreensão pelos adultos

Da reclamação à confiança, a necessária compreensão pelos adultos

Um fato rotineiro nas escolas de hoje, contudo uma novidade em relação daquela escola de talvez uns 30 anos atrás, é a reclamação um tanto agressiva de alguns pais, imediatamente e logo após um fato desagradável acontecido com o filho no contexto de uma instituição de ensino, podendo ser pela sequela de um chute, um tombo do aluno, um palavrão recebido, etc. Porque os tempos mudaram, até porque existe uma impaciência generalizada na imediata abertura da porta do elevador (é muito difícil saber esperar), e nos tempos de hoje parece-nos que poucos permanecem em silêncio no desaforo recebido das vias do trânsito, a mesma situação se apresenta no mundo educacional, quando a reclamação de um fato desagradável é imediatamente apresentada, algumas vezes para além de uma civilizadora normalidade. Pela importância do significado e para a aprendizagem daqueles que necessitamos ensinar, seguem algumas considerações visando a tranquilidade ao ato de reclamar, a partir de um ambiente de confiança gerado.

Veja que as relações entre as pessoas, podendo ser lá em casa, entre pais e filhos, ou no ambiente profissional, quer seja entre patrão e empregado, numa loja entre proprietário e sua clientela, entre bandidos e ladrões ou mesmo até no contexto de uma igreja entre os fiéis ou dos associados de um time de esporte, deixam de ser orientadas sequer pelo dinheiro, lucro ou regras, contudo sempre será primeiramente pela confiança. Podem existir os meios controladores possíveis ou ainda podem ser instaladas as mais perscrutadoras câmeras e realizadas as mais afinadas auditorias, pois se não há confiança, sempre se encontrará meios de solapar ou descumprir o que estava combinado.

O momento que vivemos e a realidade onde estamos inseridos, e falamos daqui, da realidade brasileira, sofre pela grave ausência de confiança. E os exemplos da consequência desta causa são vários e amplamente disseminados, onde citamos apenas as delações premiadas (antes eram amigos e confidentes, agora alcaguetes), os programas de televisão, tipo aquele apresentado pelo artista João Kleber, com profusas cenas e confissões de traições e os detetives na espreita dos transgressores, sem contar as milhares de câmeras a nos filmar diuturnamente: por apenas alguns poucos mal-amados, todos somos vigiados.

Daí chegamos ao mundo educacional onde, o que acontece na sociedade, também se apresenta nos intra-muros. Para deixar de que apareça uma falta na lista de presença, na chamada diária, se ensina que um atestado médico nos deve ser apresentado (aqui não se admite, a íntima confidência da combinação entre professor e aluno); para impedir a ‘’cola’’, muitos artifícios são planejados pelo professor, rotulando todos os alunos como se fossem fraudulentos, além da tamanha perda de tempo; e quando há uma reclamação, tanto reclamadores quando reclamados parecem estar com espadas desembainhadas, prontas para testarem o fio. Se o mundo adulto estabelece suas combinações e realiza suas múltiplas trocas segundo condições palpáveis, comprovadas, auditadas, duras, o mesmo padrão deixa de acontecer na realidade da aprendizagem, quando ela, para acontecer, necessita da confiança mútua entre ensinadores e apreendedores, combinações nada formais, nem controláveis, baseada em apenas dois critérios subjetivos: olho-no-olho e a dependência na palavra do outro. Dia desses, e isto é muito frequente acontecer em qualquer escola, chegou-nos um casal, pai e mãe, ponderando com todos os argumentos possíveis contra um professor a respeito do tratamento dado a seu filho. Qualquer que pudesse ouvir o relato, condenaria de imediato a atitude do professor, pelas fortes razões apresentadas e as emoções alteradas. Quando inteiramo-nos do assunto, logo conseguimos encaminhar a sua resolução, e a paz se instalou. Este fato, e que nos fez escrever estas linhas, nos trouxe logo em seguida duas perguntas: quais as razões de tamanha impetuosidade dos pais? Onde esteve a confiança em nós depositada, sendo que um dos pais já fora nosso aluno, e nos conhecia faz tempo?

A confiança é vital para todos. O sistema bancário está baseado na confiança, as bolsas de valores, a não realização de guerra, a segurança de um país. Contudo, há de se destacar uma questão importante, um dado um tanto desconsiderado quando se trata do mundo educacional, quando vai o convite para acompanhar a linha do raciocínio do que segue, para compreender o que queremos esclarecer. Veja que em toda a sociedade organizada se encontram pessoas, e estas pessoas, adultas que são, trabalham e interagem com adultos (em uma farmácia somente existem funcionários adultos e clientes adultos; em um posto de gasolina, idem) tendo uma relação equilibrada entre oferta e demanda (existem suficientes adultos para atenderem os objetivos de compra, venda, trocas), ao passo que uma das raras organizações sociais onde convivem pessoas não adultas, em sua maioria, é a escola. Nela são poucos adultos e uma quantidade maior de menor aprendizes, quando as demandas destes, pelo seu maior número, carecem de ser suficientemente atendidas por aqueles, e todo o educador é testemunha do que aqui registramos. Necessariamente, e por isso mesmo, se compreende um constante desequilíbrio diário, razão da importância da presença de excelentes professores para que a tranquilidade ali se estabeleça. Talvez o que possa segurar todas estas muitas pessoas dentro de alguns metros quadrados, são os princípios de confiança, porque outro seria qual? E ademais, sendo que a regra para a boa convivência entre os animais é a força, é possível inferir que entre os humanos, e para que deixe de haver o conflito diário entre os participantes deste espaço terreno, deveria haver um sistema de confiança nos adultos, entre os adultos e para os adultos.

Então, e para que as relações das pessoas-adultas aconteçam na forma como pensam, substrai-se a ideia que de que isto somente acontecerá pela confiança. E para compreendê-la, e para depois melhor ensiná-la, nos socorremos de Émerson. Neste caso, para o melhor entendimento dos argumentos que aqui defendemos, permita-se substituir a palavra ‘’caráter’’ por ‘’confiança’’ e veja a importância do resultado: ”Cada vez mais o caráter humano se faz presente. O mais insignificante feito ou palavra, o mero prenúncio de fazer algo, o propósito íntimo expressa o caráter. Revelais caráter, se agis; se vos sentais imóveis, se dormis, mostrais ou exibis. Pensais que, porque haveis silenciado quando outros falaram, e não haveis manifestado opinião sobre a época, sobre a sociedade, sobre escolas, partidos e pessoas, que vossa opinião é ainda aguardada com curiosidade como uma sabedoria resguardada? Ao contrário; vosso silêncio responde bastante alto”(*1).

Apresentadas estas considerações e, numa tentativa de prever uma reclamação, convertendo-a muito antes num ato de confiança – porque urge resgatar a confiança entre todos, especialmente entre os adultos, quando os que aprendem possam, no futuro, seguir os passos -, seguem três orientações:

– ‘’Toda a transação envolvendo pessoas baseia-se, explicita ou implicitamente, na confiança … ou na falta’’ – Norman W. Brown;

– ‘’Ao que tem, será dado ainda mais, e ao que nada tem, lhe será ainda tirado. Se tiver falta de confiança em si mesmo, insucessos, ódio ou falta de controle, tudo isso será aumentado’’ (*2);

– ‘’As mais destacadas dentre as fraquezas que se interpõem entre as pessoas e o triunfo são: a des-confiança, a cupidez (cobiça), a violência, a inveja, o espírito de vingança, o egoísmo, a tendência de colher onde não se semeou, e o hábito de gastar mais do que se ganha’’ (*3).

Assim, quem dá o exemplo e pratica a confiança (ou a sua falta), cuja ausência promove a acintosa reclamação, é o ensinador, é o adulto: não vá querer exigir dos aprendizes! E quando falamos de aprendizes, lembremo-nos que somos todos nós! … Pois então, e agora, onde, pois, inicia a confiança? Bem, isto, trataremos num próximo artigo.

 

Luiz Pfluck – professor e diretor

 

(*1) Emerson, Ralph Waldo. Ensaios. São Paulo: Martin Claret, 2005, pág.114

(*2) Hill, Napoleon. A lei do triunfo.  8ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991, pág. 399

(*3) idem, pág. 14

 

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