Onde não há paz, não há progresso?

Onde não há paz, não há progresso?

Numa tentativa de compreender a interrogação do título, porque o ideal da paz é a meta de todo o ser humano, agregando ainda o interesse de cada um crescer e se desenvolver sem maiores adversidades, nos permitimos escrever algumas linhas para decifrar a existência de paz, como de sua ausência, para que o progresso aconteça.

Todos queremos a paz, é inegável. A paz é o desejo de todos, é o ideal de perfeição, o máximo da excelência na relação entre as pessoas e também para consigo mesmo, pois lá reside a ausência de dificuldades financeiras, de enfrentamentos familiares, de conflitos profissionais, e de tantas outras adversidades. Na infância, genericamente todos tínhamos paz e sequer sabíamos dos problemas do mundo adulto, e a vida transcorria perfeitamente. Algum tempo mais adiante, na adolescência, as exigências já começaram a tirar o nosso sossego, quando logo a seguir, o verdadeiro mundo se nos apresentou: éramos felizes e não sabíamos! Como retornar para a infância é uma impossibilidade concreta, resta-nos olhar à volta, e resumidamente concluir, ‘’pois é … fazer o quê!’’

Paz ou a ausência dela pode ser comparada com aquela pessoa que ganha milhões na mega-sena, quando sonha um desenvolvimento de si e de seus próximos de uma forma rápida e exponencial pela fortuna imediatamente acumulada. E quem na face da terra deixaria de querer ter a sorte grande! Uma questão importante, contudo, é que a maioria das pessoas apenas pensa no benefício de ser sorteado, esquecendo-se que paritária e equilibradamente existem os imensos problemas, tão proporcionais à premiação recebida. Aquele que recebe milhões ou talvez a paz almejada, provavelmente nunca mais consiga dormir tranquilamente, pois para tê-la, o sacrifício de manter ou de alcança-la foi possivelmente tão grande, que talvez, quando obtida, o vencedor olhe para trás, e possa concluir que nem valesse à pena: a paz de Campanha de Canudos, entre 1896 e 1897, foi o resultado de mais de 20 mil mortos (*1). Também que não se vá tão longe, quando muito próximo de nós temos as experiências do recebimento de algum quinhão de herança, e que na maioria das vezes são um fardo a carregar pela disputa que ocasiona, sem contar a quebra de antigos e sólidos laços familiares, pois bem disse Maquiavel, ‘’que os homens se esquecem mais depressa da morte do próprio pai, que da perda do patrimônio’’. Decidir deixar de entrar em conflito visando alcançar a paz, optando em suportar diariamente e em silêncio as adversidades, ou até abrindo mão de benefícios que porventura se tenha direito, talvez possa ser uma boa alternativa, decisão que abre oportunidades para se avançar bem longe da complicação.

É possível compreender melhor o título deste diminuto ensaio àquele que passou pela dura experiência da ausência de paz, das noites dormidas somente na parceria da ingestão de remédios, da incompreensão daquela maioria de pessoas do fardo que carregava em nome de muitos ou de uma boa causa. As sequelas somadas à sua saúde – agora não mais igual quando dantes, que deixaram marcas irremovíveis, especialmente nas emoções, hoje um tanto já desequilibradas, e também àqueles que ajudaram a suportar ombro-a-ombro as amarguras do problema -, constituem os pesados troféus da posição alcançada. Sempre terá alguém que carregará o fardo do progresso, condição que suportam apenas poucos. E tão logo que os bons resultados aparecem, imediatamente se apresentam uns como ‘’pais da criança’’ e ainda outros, ‘’atirando’’ de longe e de perto, reclamando, sempre e permanentemente insatisfeitos. É decepcionante a surpresa ao triunfador! Incrível! Estas experiências muito bem marcam aquele que se propõe superar adversidades ou liderar projetos, que em poucas palavras encontramos resumidas em Comenius, no seu Didática Magna – Tratado de ensinar tudo a todos, podendo até servir de consolo para quem soube suportar e ultrapassar tantas adversidades: “Aliás, é bom submeter todas as plantas à prova do vento, do granizo, do trovão e do relâmpago: por isso se diz que são as regiões açoitadas por ventos e relâmpagos que produzem a madeira mais forte (*2).

A paz alcançada é idêntica, é semelhante, é um equilíbrio com a adversidade do outro lado da balança: haverá pessoas que, sentindo-se perdedoras (percebendo-se soçobrando nas águas da adversidade), afetadas pela perda na disputa ao lugar ao sol, incompreendidas nos seus argumentos ou substituídas por outras, que farão esforços bastante já a partir dos instantes iniciais da paz instaurada, para começar a desestabilizar aquela tranquilidade a muito custo obtida. Neste caso, lembrar que jamais terá aquela tranquilidade perene é sinal de inteligência, mesmo porque quando acontecer, ela será fugaz, tendo sempre alguém à espreita atacando frontalmente as brechas da fraqueza e das imperfeições, ou mesmo através de terceiros, por torpedos de mensagens com ausência de verdade ou da criação de factoides, mas conhecidas por ‘’fake news’’ e tantos outros ataques.  Alcançar a paz ou mantê-la, nestes casos, o esforço é praticamente o mesmo. Paz, então, é um permanente estado de guerra, conceito já resumido por Publius Flavius Vegecio Renatus, um escritor do Império Romano do século IV: ‘’Se você deseja a paz, prepara-te para a guerra’’.

E aproveitando o conceito de paz, e de guerra, e retomando à instigação do título em epígrafe, pergunta-se, e enquanto se convive com os problemas e as adversidades, existiria a possibilidade de crescimento? A resposta é positiva. Aquele que se encontra enfrentando dificuldades, mesmo com aquelas noites mal dormidas já antes mencionadas, e com cobranças de todos os lados, pode estar certo que se encontra ao mesmo tempo superando obstáculos, quando em tempos de paz estaria balançando na rede da estagnação e lenta decadência. As adversidades constituem-se a mais clara manifestação de vida, pois somente nela haverá problemas! (para descontrair um pouco, poder-se-ia dizer que temos uma morte inteira para a tranquilidade). Os exemplos são vários no desenvolvimento da humanidade quando da ocorrência de guerras: a tecnologia da aviação a jato na última grande guerra é apenas uma delas. Que o diga Miguel de Unamuno, ‘’Por serem vitoriosos os que se adaptam às ideias do mundo e derrotados os que exigem que o mundo se adapte a suas ideias: é dos derrotados que depende o avanço da humanidade” e Rousseau ‘’Um pouco de agitação dá energia às almas, e o que faz realmente prosperar a espécie é menos paz do que a liberdade’’ (*3)

Então, para crescer e se desenvolver ou ainda, para deixar de cair donde se encontra, permanecendo vivo e ‘’peleando’’, sempre tendo por objetivo alcançar um estágio melhor para si e para seus próximos, tanto na organização onde labuta, na comunidade onde vive ou mesmo ainda para o país onde se nasceu, poder-se-ia deduzir a partir dos argumentos acima, de que onde há paz, existe a soma de duas condições: o conflito foi a causa, o conflito é a causa.

Por outro lado, Pascal, traz uma questão interessante: “Quando me pus, algumas vezes, a considerar as diversas agitações dos homens e os perigos e as penas a que se expõem, na corte, na guerra, de onde nascem tantas querelas, paixões, empresas ousadas e muitas vezes más, eu disse muitas vezes que toda a infelicidade dos homens provém de uma só coisa, que é não saberem ficar em repouso num quarto (*4)

Por isso, o que é necessário ser desejado para o progresso? Ao mesmo tempo a guerra e a paz? E como fica a infelicidade pelo progresso?

 

Luiz Pfluck, professor e diretor

 

(*1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_de_Canudos

(*2) Comenius, João Amos. Didática Magna: tratado de ensinar tudo a todos. São Paulo : Martins  Fontes, 1997, pág. 199

(*3) Rousseau, Jean-Jacques. O contrato social. Porto Alegre: LP&M, 2013, pág. 98

(*4) Pascal, Blaise. Pensamentos. Bauru, SP: EDIPRO, 1995, pág. 174

 

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