O quanto de Portugal há ainda em você?

O quanto de Portugal há ainda em você?

Herbert Marshall McLuhan, um teórico da comunicação canadense, e registrado no livro Os meios de comunicação, trouxe-nos uma máxima de que ‘’o meio é a mensagem’’. Realmente, no meio que vivemos existe uma mensagem, e por isso convivemos todos os dias com mensagens diferentes emanadas do meio familiar, profissional, social, de entretenimento, do país onde vivemos, etc.

Viemos ao mundo algum tempo atrás, e lá nos damos conta que encontrávamos num meio chamado de ‘’Brasil’’. Algum tempo depois, já mais crescidos, percebemos que milhares foram as mensagens que consumíamos e respirávamos diariamente. Hoje, e agora maduros, e com o passar do tempo, vimos que muitas delas já deixaram de ser por pura atualização ou modernização, mas algumas ainda permanecem intactas desde quando houve a invasão deste pedaço de terra pelos portugueses (estudando história, na escola, nos disseram que o Brasil foi descoberto!). Em 22.04.1500 Portugal carimbou a sua marca neste pedaço de chão, quando deixou a ideia de que Estado seria o soberano, algo diferente dos EUA, criado espontaneamente em 1620 por colonos cristãos protestantes que procuravam liberdade religiosa, longe do poder da Igreja Anglicana, decidindo eles próprios, criar uma Nova Inglaterra.

Do desejo de Portugal nasceu o Brasil, e desde lá temos dificuldades em cortar as cintas que nos aprisionam para um modelo melhor, aquele chamado de desenvolvimento. Os limites que nos cercam e que seguram as maravilhosas condições, podemos crer nesta rápida digressão, são algumas abaixo, mas acreditamos que existam mais:

– a primeira correia é a mensagem de dependência, combinada com o paternalismo. É pensamento generalizado de que o estado português deve oferecer educação, saúde, segurança, alimentação subsidiada, emprego de carteira assinada (ensinando-se que emprego é diferente de trabalho), férias de 30 dias com mais 1/3, 13º, etc, etc. Mais informações basta abrir as páginas da Constituição. Se o pai-Estado promete e registra o direito, os filhos numa relação de espera, paciente e submissamente obedecem, porque o super-homem vai vir para resolver os nossos problemas, uma das razões pela qual é sucesso de bilheteria os filmes de super-heróis;

– outro que nos maneia até hoje é a limitada condição ao conhecimento. No Brasil, a primeira instituição de ensino superior e permitida a ser criada pelo poder público foi a Escola de Cirurgia da Bahia, 300 anos depois do descobrimento, em 1.808, ao passo que tão logo aportaram na América do Sul, pelos idos de 1500, os espanhóis se preocuparam em abrir escolas e universidades. Ler e escrever um texto com argumentos lógicos, esclarecer, debater, ainda continuam a ser ações de pouca, baixíssima intensidade, fato que nos conduz a ver horizontes limitados, tanto é que apenas uma fábrica de carros populares produzimos no Brasil, a Gurgel, e que lamentavelmente foi fechada;

– somos um simbiose de tudo, sem conseguir definir uma identidade nacional (índios, negros, portugueses), quando daí Jeca Tatu, Macunaíma e Mazzaropi são expressões de cultura; inocentes, por pouco nos vendemos, preferindo espelhos e adornos; aceitamos todas as raças e todas as crenças; quando alguém reivindica, faz greve ou passeata, parece um horror; Gabriela, Cravo e Canela, impostação de uma sexualidade pervertida, é fetiche assistido com frequência;

– o ‘’jeitinho brasileiro’’, fazendo sem pressa, copiando tudo (pirateamos, melhor dito), malandramente trabalhando um faz de conta nas 08 longas horas de emprego, e para extrair o valioso ouro e as pedras da minas gerais, as conhecidas corrupções e as corruptelas introduzidas por Portugal, ao passo que para se ter dinheiro, serve qualquer jogo de azar, do bicho à mega sena, todas estas simplórias atitudes impingidas aos primeiros brasileiros.

Apresentadas as atitudes que o meio português nos presenteou, e que ainda mantemos significativas até hoje, é adequado, e para conhecer onde nos encontramos para tentar dele sair, realizar algumas perguntas:

– concordamos que o Estado deve manter e dirigir as nossas ações?

– dedicamos quanto o tempo aos estudos e à qualificação?

– ‘’o brasileiro é bonzinho’’, é lógico que deixamos de pensar assim, é claro?

– o trabalho é pena ou liberdade? E finalmente,

– quanto do antigo Portugal existe em nós?

A resposta, e para o nosso desenvolvimento, e saída da letargia, se encontra distante da mensagem do meio brasileiro onde estamos. Não há saída: ou nós nos revolucionamos, ou permanecemos colônia.

 

Luiz Pfluck, professor e diretor

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